Family Talks

Editorial: Fim da escala 6x1: mais tempo em família é investir no Brasil

Pai, mãe e dois filhos pequenos sorriem e conversam juntos no sofá da sala de casa.

Com o fim da escala 6x1 — dois dias de descanso, jornada de 40 horas, mesmo salário —, o Brasil decidiu que apenas um dia na semana em família não basta.

Também se pergunta, e com razão, quanto essa mudança deve custar: a CNI estima até R$ 267 bilhões por ano para as empresas; o Ipea calcula cerca de 1% nos custos operacionais. Pequenos negócios e contas públicas exigirão atenção; a transição de 14 meses existe para enfrentar isso com planejamento, não com demissões.

Mas há outra pergunta, que raramente entra na conta: quanto custou, até aqui, a ausência?

Vínculos se formam através da presença: no café da manhã, na lição de casa, na conversa sem pressa. A 6x1 corroía justamente essa presença. As mulheres dedicam 21,4 horas semanais a cuidados e afazeres, contra 11 dos homens. Para a mãe que trabalhava seis dias, a folga virava dia de serviço.

Um estudo de Family Talks com o ISE Business School reúne evidências de que o conflito entre o trabalho e família adoece e sabota a performance profissional — enquanto o equilíbrio melhora a saúde e a vida conjugal. Em um teste britânico da semana de quatro dias, o tempo que os homens dedicavam aos filhos subiu 27%.

A família não é só uma base de afeto: é a infraestrutura sobre a qual uma nação se desenvolve. Tempo de convívio rende em saúde, aprendizado, equidade entre homens e mulheres e cuidado com crianças e idosos num país que envelhece. Os retornos não aparecem no próximo trimestre, mas em dez, vinte anos, na geração criada com pais presentes. Por isso é investimento, não gasto.

Folga, porém, não vira um bom convívio automaticamente. Às famílias cabe escolher e proteger esse tempo; às empresas, oferecer escalas previsíveis e respeitar a desconexão; ao poder público, fazer a transição funcionar e honrar a proteção especial que a Constituição dá à família.

Tempo em família não cabe em planilha. Mas é o investimento com maior retorno que uma nação pode fazer.

Por Rodolfo Canônico

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