Family Talks

Editorial: A política está em crise. Não desistamos dela.

A estátua “A Justiça”, de Alfredo Ceschiatti, diante do Supremo Tribunal Federal, com os arcos do edifício iluminados em rosa à noite.

Há décadas o brasileiro convive com o pior da política: escândalos de corrupção que se sucedem sem consequência, uma polarização que transforma adversários em inimigos, maus líderes de toda sorte. Agora é a própria Suprema Corte — guardiã da Constituição — que se vê mergulhada em denúncias escabrosas, a menos de um mês das eleições. As pesquisas confirmam o previsível: desalento, cansaço, descrença nas instituições democráticas que levamos décadas para erigir. Um sentimento absolutamente compreensível.

Sem qualquer ufanismo, porém, gostaríamos de insistir numa via alternativa: se a política está em crise, a saída não é desistir dela, sob o risco de deixar o palco inteiro aos seus piores atores, sem alternativa à vista.

Tomemos o caso do próprio Judiciário, recorrentemente acusado de ativismo judicial. Não negamos o problema. Mas talvez sua origem esteja em outro lugar: na judicialização de questões que não foram deliberadas onde deveriam. Afinal, quando as instâncias mais próximas do cidadão — câmaras municipais, assembleias, o Congresso, as entidades da sociedade civil — deixam de construir consensos, resta transferir às cortes superiores decisões que poderiam ser tomadas mais perto das famílias. Eis a subsidiariedade às avessas: quanto mais longe da vida real uma decisão é tomada, menos ela responde a quem vai vivê-la. Como resultado, a sociedade civil se sente impotente, e o Judiciário, imprescindível ao funcionamento da democracia, cai em descrédito.

Diante da crise, insistimos no engajamento, que pode assumir muitas formas: do voto consciente para deputado e governador em outubro ao estudo constante do que a política pode ou não fazer pela vida das famílias brasileiras — é para isso, aliás, que estamos aqui.

Com a missão de zelar para que as famílias estejam no centro das decisões tomadas em Brasília, Family Talks não propõe que se vote neste ou naquele candidato, ou que se aprove este ou aquele juiz. Isso cabe à consciência de cada brasileiro. O que não faremos é lavar as mãos diante do futuro do país, sob pena de permitir que seja escrito por quem não se importa com as famílias.

Por Rodolfo Canônico

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